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Falar de signos é falar dos sinais que estruturam o pensamento e servem de veículo às ideias. Falar de sonhos é apresentar os signos que traduzem os nossos desejos.

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1) Uma das anedotas preferidas de Freud: um casal de meia idade está sentado numa mesa de restaurante. Levemente entediados, marido e mulher não têm muito o que dizer. De repente ele se dirige a ela e fala: — Se um de nós dois morrer, eu vou morar em Paris…

2) Godard, o cineasta francês, gostava muito desta: um condenado à morte é conduzido por seus algozes ao local da execução. Ao subir no patíbulo, tropeça e quase cai. Olha então para os que o conduzem e comenta, um tanto exasperado: — Hoje não é meu dia sorte! 3) Kant, segundo dizem, deliciava-se com a história de um homem que ficou viúvo e resolveu contratar pessoas para que se entristecessem e chorassem no enterro da sua mulher. No entanto, quanto mais aumentava o valor do pagamento, mais os contratados se alegravam e menos tinham motivo para chorar.

Apelo junino

Ei, vamos dançar de novo aquela quadrilha? Prometo que agora não vou lhe decepcionar. Da primeira vez me comportei mesmo como um matuto, deixando você sozinha no salão. De nada adiantou o cachimbo, o cornimboque e o bigode com que me adornaram para parecer um cabra da peste. Tudo aquilo era postiço; verdadeiro mesmo só a minha timidez. Agora prometo levar a dança até o fim, mesmo que ainda não tenha muito jeito. Ou jeito nenhum.    

         Venha, estou lhe dando a minha palavra. Não a palavra daquele rapazinho que um dia fugiu de você, mas a do adulto que aprendeu um pouco a reconhecer seus erros.  Um deles foi ter feito você chorar. Ou não chorou? Se não, como explicar a maquiagem desfeita? Percebi a pequena trilha d’água perfurando o excesso de preto e ruge com que tentaram afogar sua beleza. Besuntaram muito, mas esse exagero não desfigurou o rostinho meigo de onde brotava um sorriso cujos reflexos ainda hoje iluminam a minha vida.  

      Se você vier agora, prometo que não vou fugir para o pátio vizinho ao salão a fim de contemplar os fogos que explodiam na noite. Eu procurava me distrair com as luzes e a fumaça que emanava das fogueiras, e vez por outra notava um balão que se perdia no escuro (naquele tempo, eles eram permitidos). Queria estar num deles, voar para bem longe e afogar nas sombras a lembrança do que acabara de ocorrer. O barulho da festa, com as pessoas rindo, dançando e falando alto, contrastava com o meu silêncio desolado. Deveria ter voltado ao salão e pedido desculpas, mas em vez disso fiquei por ali ruminando o meu fracasso.

       Bem que poderíamos tentar outra vez. Você deve estar se perguntando: mas como? onde? Sei que aquele vestidinho colorido de chita não cabe mais em você – nem a pulseira, nem o colar. Mas você deve ter guardado pelo menos o broche vermelho raiado de branco que estava espetado em seus cabelos. Ou o perfume que eu aspirei em seu pescoço e me deixou um pouco tonto, levando-me mais uma vez a errar o passo. Isso nos fez tropeçar um no outro e quase nos esborracharmos no chão. Fiquei sem jeito, olhei-a como quem pede desculpas; você apenas sorriu e continuou firme na dança, com uma perícia bem de mulher. Foi tolice não deixar que você, dali em diante, conduzisse os passos. Por uma soberba tipicamente masculina, preferi fazer isso mal a lhe seguir. E deu no que deu.

      Foi quando retornei ao salão que percebi em seu rosto a discreta trilha de lágrimas. Você se recusava a olhar para mim. Parecia amuada, já não sorria. Estava certa, claro, pois eu era o seu par; graças a mim, deve ter tido a primeira noção do que é o abandono.

       Houve um momento em que nossos olhos se cruzaram e tive alguma esperança, mas você fez que não me viu. Parecia ter superado o que acontecera e já me haver esquecido. Sei que não esqueceu, por isso agora lhe faço este apelo.  De onde estou vejo e ouço os fogos, aspiro a mesma fumaça acre.  Com um pouco de esforço, posso até ouvir a música que nos embalava naquela noite remota… O coração bate como há tantos anos. Tenho em mim o cenário, sou o cenário. Só falta você.

O primeiro Fusca a gente não esquece.

Lembrando Ruth

Este é meu primeiro Dia das Mães sem ter a quem presentear. Dei-me conta disso quando, no shopping, Denise escolhia um presente para a minha sogra e, súbito, me veio o pensamento: “O que vou comprar para mãe?”

Ela morreu em dezembro, por que então cogitar de presenteá-la? A psicanálise diria que a morte ainda não fora processada no meu inconsciente. O que nos faz sentir a perda é a repetição de situações nas quais dolorosamente percebemos uma lacuna.  E assim, de lacuna em lacuna, vai o morto se apartando da nossa existência até que se consuma a orfandade.   

Nos últimos nos, convivi com ela doente e imobilizada. Sondas, máscaras, equimoses perfuravam ou marcavam o seu corpo. Essa imagem se superpunha às que apareciam nas fotografias e embotava um pouco a lembrança dos momentos que vivi com ela.

Depois do desfecho inevitável, começo a recobrar as memórias que marcaram o seu papel de mãe.  Entre elas, a que mais me toca são as noites que ela passava me abanando por causa das crises de asma. Por horas meneava intensamente o leque na tentativa de abrandar a dispneia feroz. Isso chegava a me incomodar pelas horas de sono que lhe eram subtraídas.  Com o tempo, vendo-a avançar na idade (viveu 94 anos), percebi com alívio que essa vigília não lhe comprometera a saúde. Seria terrível cumular a asma com o remorso.   

Havia momento líricos, quando na máquina de costura ela cantava tangos ou valsas “do seu tempo”, que terminava sendo o meu. Ou quando na cozinha, preparando o seu delicioso pavê branco, cantarolava   modinhas ou fragmentos de hinos aprendidos no Colégio Cristo Rei, de Patos, onde estudou por muitos anos.

Órfã de mãe, Ruth morou na casa de um tio até se casar. A ausência materna fez com que ela se dedicasse aos filhos com redobrada aplicação. Como se quisesse intensificar neles a presença e os cuidados que faltaram em sua vida. Para isso havia a casa, que ela sempre preparou com empenho e arte de acordo com as ocasiões. Natais e São-Joões tinham a sua marca, traduzida em enfeites caprichados e comidas gostosas. Era uma esteta do lar.   

Agora que o tempo esmaece o trauma da perda, sinto que a sua imagem se recompõe com os traços vívidos do passado. Torna-se então possível visualizá-la nos momentos em que ela foi determinante e mesmo nos triviais, pois todos contam para lhe dimensionar a figura. Se não há mais a quem a presentear, resta o consolo de tê-la em nós sempre presente.

Por que o livro é o melhor amigo do homem?

Motivos não faltam.

– Ele nos acompanha para onde a gente vá.

– Independentemente do dia, do lugar ou do clima, está sempre disposto a se abrir para nós.

– Desde que a gente o observe com atenção, não nos deixa sair da linha.

– É capaz de contar histórias sérias ou divertidas, mas também nos orienta e instrui.

– Faz-nos “viajar” de forma segura, imune às intempéries, pelos mais diversos lugares do mundo.

– Apresenta-nos a personagens intrigantes e profundos, que nos ajudam a compreender melhor a alma humana. Com tais personagens a gente se identifica e estabelece uma comunhão impossível de estabelecer com as pessoas de carne e osso.

– Não protesta quando o esquecemos por um tempo, deixando-o às traças, pois sabe que em algum momento a ele vamos retornar.

– Não se irrita quando a gente o suja, amassa ou rabisca. Pelo contrário, sabe que esses maus-tratos significam que estamos vivamente interessados no que ele nos diz.

– Não se chateia se a gente, por cansaço ou preguiça, resolve virar a página, ou mesmo substituí-lo por outro. Ciúme não é com ele.

– Não se constrange quando o apertamos, sopesamos, manuseamos, pois sente esses contatos como uma intimidade destituída de interesses escusos ou de má-fe.

– Não fica magoado quando o passamos a outra pessoa, pois a sua fidelidade (ao contrário da dos cães) é extensiva a todo o gênero humano.

– Está sempre de bom humor, sorrindo para nós de orelha a orelha.

(Homenagem ao Dia Mundial do Livro – 23 de Abril)

Blog de Chico Viana – https://chviana.blogspot.com.

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