Feiura ideal

Fala-se muito na beleza ideal, mas pouco se comenta a feiura ideal. Até nesse aspecto, coitados, os feios sofrem preconceito. Deve ser porque diante dos feios levamos o que se convencionou chamar “choque de realidade”. Nesse caso a feiura seria, digamos, mais sincera, enquanto que na beleza haveria muito de miragem. A beleza é umaContinuar lendo “Feiura ideal”

“Bacurau” (contém spoiler)

“Bacurau” é uma alegoria sobre o nosso subdesenvolvimento. Uma espécie de “Terra em transe Hi Tech”, pois nele os bandidos usam drones e os habitantes da cidade que dá título ao filme têm telefones celulares (mas num momento crucial de suas vidas não conseguem se comunicar com ninguém e se tornam socialmente invisíveis – tãoContinuar lendo ““Bacurau” (contém spoiler)”

Exageros

Fazia um luar tão intenso, que as pessoas saíam à rua de óculos escuros. //// Ela cheirava tão mal que, quando começou a se abanar, não ficou ninguém na sala. //// A bebida tinha um gosto tão ruim, que era servida com um kit para vômito. //// Ela tinha uma língua tão comprida que, quandoContinuar lendo “Exageros”

Pintar o cabelo

Não tenho nada contra quem pinta o cabelo. É louvável o esforço de querer parecer mais jovem, driblar os anos. O problema é que às vezes se carrega na tinta. O resultado é não apenas feio como também revelador. O ideal seria esconder o artifício, negar que o tingimento é fingimento. Como não se fazContinuar lendo “Pintar o cabelo”

Sobre o riso

           O riso denota uma alegre resignação diante do desespero. Ele pode existir mesmo no limite, quando não há mais saída. Ao pular de um prédio, o palhaço sonha fazer uma acrobacia para divertir quem porventura acompanhe sua queda. E o humorista deixa um bilhete para os familiares:          — Vou dar um pulinho láContinuar lendo “Sobre o riso”

Nostalgia e melancolia

Nostalgia e melancolia não são a mesma coisa. Distinguem-se em pelo menos três pontos: 1 – A nostalgia é a saudade do que se teve. A melancolia é a saudade do que não se teve. 2 – A nostalgia é histórica, não existe sem uma prévia convivência com o objeto perdido. A melancolia é mítica;Continuar lendo “Nostalgia e melancolia”

A força da imagem

A imagem é o ingrediente fundamental da poesia, que se define como um discurso por imagens. Mas ela também aparece na prosa e mesmo no discurso cotidiano, informal. Um dos seus papéis, nesse caso, é concretizar noções abstratas. Quando explico isso em classe, costumo dar como exemplo um instrutor de autoescola que quer mostrar aoContinuar lendo “A força da imagem”

O “psicológico”

Outro dia na televisão ouvi alguém dizer que é preciso entender “o psicológico” dos jovens. Alto lá! “Psicológico” é adjetivo, e não substantivo. Aparece bem em locuções como “nível psicológico” “distúrbio psicológico” etc. O que é preciso é entender “a psique”, “a mente”, “o psiquismo”, “a psicologia” dos jovens.          Lembrei-me agora de um alunoContinuar lendo “O “psicológico””

Hipálage

Quando eu era pequeno, ouvi falar de um “paletó para homem lascado atrás”. As pessoas diziam isso e riam. Eu, claro, não conseguia entender. Sempre me lembro dessa frase quando penso na hipálage, figura sintática que representa um “deslocamento de atribuição”. A hipálage pode ser um recurso literário, como nesta passagem: “Fiquei olhando o vooContinuar lendo “Hipálage”

Poesia e loucura

Fiz até o quarto ano de Medicina. Quando pagava Psiquiatria, o professor levou a turma para ouvir o depoimento de um paciente que saía de uma crise psicótica. O paciente não estava totalmente curado, mas tinha alguma consciência do que passara. Contou uma série de detalhes que eu já esqueci.  Mas me lembro do queContinuar lendo “Poesia e loucura”