Notas sobre a pandemia (2)

O homem faz malabarismos num dos sinais da Epitácio Pessoa. Parece argentino ou venezuelano. Os carros param e apreciam, mesmo sem querer, a arte daquele artista de rua. Terminado o número, ele circula entre os automóveis sorrindo e estendendo o boné. Ninguém baixa os vidros. O motivo certamente é o medo do vírus, que desencoraja qualquer contato humano que implique o risco de contágio. Não se sabe se o homem é portador, mas, por via das dúvidas… Alguns veem essa possibilidade como um pretexto para continuar indiferentes. Nunca baixaram os vidros e têm agora uma boa razão para não fazer isso.

Notas sobre a pandemia (1)

Amanhã, segunda, é dia de ficar em casa. Terça, também. E quarta, quinta, sexta, sábado, domingo… A quarentena torna iguais os dias. E nas emissoras de TV o assunto é o mesmo. Os canais mostram a devastadora escalada da Covid-19 no mundo e as estratégias dos governos para debelar a pandemia. Quem resistia a deixar o domicílio vai aos poucos aceitando a ideia de permanecer recluso. Os que não concordarem adoecerão, pois é patológico se insurgir contra aquilo que não tem saída. E a saída, agora e pelos próximos dias, é não sair. Aproveite para conhecer melhor a sua casa e as pessoas que nela moram. Tudo indica (felizmente!) que você não terá outra oportunidade como essa.

Corrente

O vírus e nós

Dizem que a ficção antecipa a realidade, e nada melhor para confirmar isso do que a situação que estamos enfrentando com essa ameaça do coronavírus. As ruas vazias, como se vê em São Paulo e em outras grandes metrópoles mundiais, parecem o cenário de um filme de terror. A diferença é que nos filmes a gente visualiza o inimigo, enquanto que agora ele é microscópico e praticamente invisível. Essa invisibilidade reduz as chances de derrotá-lo, pois dá a muitos a impressão de que ele não existe. Não falta quem considere os alertas das autoridades médicas um exagero a que a mídia, interessada em aumentar a audiência, dá imensa repercussão.

O brasileiro gosta de assumir esse tipo de comportamento. Prefere muitas vezes negar o perigo a enfrentá-lo, pois o enfrentamento exige esforço e sobretudo renúncia a certos prazeres. Um deles é ir à praia, onde o aglomerado de banhistas constitui um ambiente propício à contaminação de vírus, bactérias e outros micro-organismos que podem ameaçar-lhe a vida.

Em outro aspecto a ameaça da Covid-19 lembra uma obra de ficção — o da expectativa quanto ao final. Espera-se que ele seja feliz, claro. O problema é quanto de insanidade teremos que repelir, e quanto de sofrimento suportar, até que o pesadelo acabe.

O vírus vem abalando a economia mundial e ameaça levar os países à recessão. Isso dá medo, pois historicamente as guerras sucedem períodos de grande crise econômica. O ser humano convive mais facilmente com o vazio do sentido do que com o do bolso. Tendo o que comer, ele encontra energia para especular sobre o enigma da existência. De barriga vazia, não há como direcionar o intelecto a elucubrações transcendentes. O imperativo é matar a fome, que no capitalismo se multiplica em outros apetites. Já se vê nos supermercados a ânsia em fazer provisões e garantir o suporte material básico para a sobrevivência.

Somos egoístas, indiferentes ao próximo, ligados primeiro em nosso bem-estar – mas também somos aferrados ao instintual impulso de sobreviver.Tal impulso fica seriamente ameaçado ante a perspectiva de uma guerra de grandes proporções. Essa ideia paradoxalmente (ou nem tanto) me faz otimista. A possibilidade de uma hecatombe universal alerta-nos para o imperativo de preservar a vida na Terra. E não será um vírus, por mais contagioso e “coroado”, que terá a força de mudar isso. Resistiremos, mas para que muitos não caiam pelo caminho é preciso que sejamos solidários. No atual momento, ajudar os outros é ajudar a nós mesmos.

O feminino e o machão

Releio artigo de Luiz Carlos Maciel sobre o feminismo segundo Yoko Ono. Yoko, todos sabem, foi mulher e guru de John Lennon. Dizem que ela não se dava bem com Paul McCartney e concorreu para o fim dos Beatles. Como artista plástica parecia não ter muita expressão, mas era uma mulher inteligente e avançada. Suas ideias feministas confirmam isso, embora o avanço que ela propõe nesse terreno seja um aparente retrocesso.

Yoko prega uma feminização da sociedade. Para ela não é a mulher, e sim o homem que deve mudar. Enquanto o feminismo militante defende a igualdade de direitos e também de ações, o de Yoko não vê sentido em a mulher competir com o homem para fazer o que ele faz. Isto seria adotar um modelo falido, que enfatiza a truculência, o instinto bélico, a insensibilidade emocional.

Esse ponto de vista se aproxima do de Freud, para quem a civilização é fruto de uma sublimação dos instintos (ou “pulsões”). Sem renúncia instintual, ou seja, mantendo-se o estado de barbárie primitiva, seria impossível produzir, arte, ciência, religião. Como os valores agressivos se ligam basicamente à testosterona, é o homem e não a mulher quem tem de abdicar de parte da sua natureza. A feminização é não apenas uma estratégia, mas um objetivo para o qual tende o ser humano rumo a uma sociedade mais pacífica e terna.

Feminizemo-nos, pois. É fundamental para a nossa permanência na Terra que nos libertemos cada vez mais de impulsos que nos fazem regredir. Felizmente esse apelo já vem sendo seguido por muitos homens, que não se envergonham de chorar em público, cuidam do corpo, escrevem ternos cartões em dias especiais e evitam palavrões gratuitos.

Mas isso não significa que o machão esteja desaparecendo. Como toda transição, a do machismo para a feminização se dá aos poucos.  Ainda se encontram aqui e acolá sólidos redutos onde o machismo resiste com vigor, numa espécie de nostalgia simiesca que poderíamos chamar de “saudade da horda”.

Se o leitor duvida, basta olhar em volta (mas olhe com discrição; o que os machões mais detestam é ser encarados). É possível reconhecê-los pelo cheiro, pois raramente se perfumam. É fácil distingui-los na praia, pois machão não se bronzeia – assa.

Uma característica deles é se acompanhar de outro ou mais machões. Esse coleguismo evoca as antigas caminhadas solitárias por bosques e savanas em busca da caça ou do inimigo. Podem também se reunir nas academias de ginástica ou em confrarias sigilosas nas quais não se permite a entrada de mulheres.

Todo machão que se preza é no fundo um misógino, e tal aversão agora se explica: a mulher é não apenas o seu oposto, mas o destino para o qual ele evolui. E nada o assusta mais do que a possibilidade de “virar mulher”.

À mulher, no seu dia

Ela é a nossa primeira casa e a matriz que dá os alicerces para a nossa construção afetiva e moral. É a terna namorada e a amante que se abrasa. É a melodia que acalenta o berço e a paciente conselheira que instrui quando nos perdemos nos descaminhos da existência. Íntima dos segredos da natureza, ela tem um profundo compromisso com a vida que lhe cabe gestar. É musa e mestra, estímulo e conclamação a que realizemos grandes (ou mesmo pequenos) feitos. Em função dela projetamos o que queremos ser, e temos no seu aplauso a melhor medida da nossa glória. Os que a menosprezam ou matam são inimigos da Beleza e aviltam os elevados propósitos da Criação.

Atchim

Paradoxo da civilização. Um simples vírus gripal parece pôr em risco todo o edifício capitalista, reduzindo a produção, afetando os mercados e derrubando as bolsas. Por mais que desenvolvamos a ciência e aperfeiçoemos a tecnologia, nunca estaremos seguros. Tudo pode desmoronar num atchim…

Minha conversa com o “Bruxo”

Aproveito a releitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocar” não é bem o termo, pois só quem falou foi Machado. Nossa conversa, além de instrutiva, serviu-me para matar o tédio do domingo. Espero que tenha para o leitor a mesma serventia:

 – O senhor é um autor melancólico. Por que se liga tanto no passado?   

 – O menos mau é recordar. Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras.

– Em sua obra é comum o tema da loucura. Há alguma justificativa para isso?

          – O mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?

– Por que escolheu um “morto”para ser o narrador de “Memórias Póstumas…”?

– A franqueza é a primeira virtude de um defunto. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte. 

– De fato, um morto não se importa com o julgamento alheio…

– Não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

         – Por que é tão difícil a franqueza nas relações sociais?

– A veracidade absoluta é incompatível com um estado social adiantado.

– Outro tema recorrente em sua obra é a ambiguidade moral do ser humano. Por quê? 

         – O vício é muitas vezes o estrume da virtude.

– Até que ponto essa ambiguidade é determinada por fatores externos?

– Não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.

– Apesar disso, transparece na sua obra a ideia de que o homem é fundamentalmente egoísta.

– O nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.

– Que conselho o senhor daria a um jovem de hoje?           – Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio a fim de lastimar o curso incessante das águas.

Carnaval e solidão

“Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era comprometer-se com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

         Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

         Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

         Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

Roseando (Pelas veredas de João)

Viver é um risco, e quem recua de medo da vida se arrisca também. Pode morrer dentro de si mesmo, gemer nos amarelões da alma por inanição existencial.     

                                                 ****

No fundo de todo homem está o Demo, espreitando. É muito fácil ser mau. Duro é renunciar à maldade, pois a bondade não faz parte da nossa natureza. Tem que ser aprendida, e para ajudar nisso criamos Deus. Exige renúncia, ração de convento e muita força.  

                                        ****

A quem não tem esperança, aconselho: tente viver assim mesmo. Às vezes, por entre as brumas do desencanto, insinua-se um sentido, um farol. O amanhã é de quem acredita.

                                        ****

Do que se escreve nem tudo faz sentido, nem tudo leva a alguma coisa. Mas é preciso escrever, nem que seja para dizer o que já foi dito. Tudo é repetição, mas em novos contextos.

                                                 **** 

É preciso atravessar a vida se distanciando do ciúme, da inveja, da injúria.  Cabisalto, mesmo que por dentro estremecido. O outro é lobo voraz e está sempre nos cercando. O que consola é que, como lobos, o cercamos também.

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Com os outros pode-se viver bem no artifício, nunca no total espontâneo.  Isso pede a mentira para melhor conviver, o abrirdentes com jeito de sinuosa simpatia, mel que disfarça o ferrão.

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Política é jogo sujo, que não separa os bons dos maus. É gangorra em que cada um, na fome do poder, pode descer ao seu avesso. E depois, sem a luzinha do escrúpulo, fazer o caminho oposto.  

                                        ****

Convém evitar as demasias, pois o que delas sobra pode nos afogar. É então o caso de ser reto-direito, mas sem o dente da inflexibilidade. Esse não só perfura a carne, também vai fundo no espírito.

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Mulher não é tão perigoso como se diz. Tanto mais se amansa, quanto menos a gente se mostra sensível aos mistérios que nela tentaram encarnar. É preciso vê-la tal qual, sem o afã da fantasia. Mulher despreza o homenino que, de medo, cerca-a de ameaças ferozes com fome de matar, morrer, ou ambos.

                                                              ****            

Às vezes é bom ficar doente grave. Faz pensar melhor e joga o orgulho para debaixo do topete. Pequenos ficamos diante da morte, como quem na travessia de um deserto tem de ir a pé e sabe que nunca, nunca chegará ao outro lado.

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