Promessas para o novo ano

Prometo em 2020

– fazer rigoroso regime entre as refeições;

– botar em dia os compromissos (menos os atrasados);

– ser sincero com as pessoas, sobretudo quando lhes mentir;   

– fazer ginástica todas as manhãs antes de me levantar (bocejos e algumas sessões de espreguiçamento);

– controlar a bebida enquanto ainda estiver sóbrio;   

– evitar deixar tarefas pela metade, não as começando;

– aceitar o jeito de ser dos outros, desde que ele seja semelhante ao meu;

– ser cada vez mais pontual nos meus atrasos;  

– dormir oito horas por dia (e mais algumas à noite);   

– fazer diariamente um exame de consciência até conseguir ser aprovado.

Deus e a graça

A passagem do ano nos torna filosóficos. Incita-nos a pensar na morte, no tempo, em Deus.

Uma das frases que mais me impressionaram na adolescência foi: “Nunca alcancei a graça do ateísmo perfeito”. Quem a escreveu foi Carlinhos Oliveira, cronista do Jornal do Brasil e boêmio carioca. Carlinhos morreu de pancreatite alcoólica e viveu torturado por angústias metafísicas.  De dia negava Deus, de noite tinha medo do escuro e O chamava.

A frase dele me marcou por me abrir os olhos para esta verdade profunda: tanto a crença como a descrença em Deus independem da nossa vontade. Nesse delicado terreno do espírito não escolhemos, somos escolhidos. Assim como existe uma “graça” no sentido positivo, que afirma Deus, existe outra no sentido oposto, que O nega.

É tão difícil merecer a primeira como a segunda. Talvez para esta última se necessite até de mais sofrimento e grandeza. Ninguém risca Deus da vida sem substituir a confortável ilusão que ele representa por um senso ético profundo.

Talvez o drama de Carlinhos viesse de ele ainda perseguir tal senso e, ao mesmo tempo, não poder mais regredir às fantasias que lhe alimentavam a crença. Acabou órfão de Deus e de si mesmo.

Questão de gosto

O gosto aprendido satisfaz mais do que o espontâneo, pois é valorizado pelo grau de esforço que fazemos para alcançá-lo. Vem com uma ponta de orgulho e autogratificação.

Já o gosto espontâneo, como não exige empenho, com o tempo se transforma em tédio. 

A condição

Recentemente vi na televisão uma mulher fazer o nome do pai antes de assaltar uma joalheria. Não foi a primeira fez que assisti a cenas desse tipo, envolvendo até crimes mais graves. O indívíduo invoca sinceramente a proteção divina, pois vai correr riscos e pretende sair incólume da aventura. Espera a proteção de Deus mesmo se dispondo a fazer algo errado e prejudicar o outro. O fato é que o apelo dessa pessoa é tão legítimo quanto o de quem reza para fazer o bem (ou afastar o mal). O ser humano molda a crença religiosa aos seus propósitos. O pior dos malfeitores pode se sentir interiormente fortificado por achar que Deus o acompanha e protege. A condição para isso é ter fé.

Internet e fofoca

A internet potencializou a fofoca. A fofoca não é novidade, claro; sempre houve pessoas que precisam depreciar os outros para se sentir melhores. Mas antes a vida alheia era objeto de comentários discretos. Havia certo pudor do fuxico. Hoje a maledicência é propaganda sem limites nas redes sociais. E a coisa piora devido ao distanciamento propiciado pelo universo virtual. Na conversa frente a frente é mais difícil deixar de lado o escrúpulo, pois o interlocutor está diante de nós. Mas isso não ocorre quando o outro é uma presença remota, e falta o olho no olho.

O democrata e o demagogo

O democrata se curva à vontade do povo. O demagogo curva o povo à sua vontade, dando a impressão de que age em prol do bem público. A arma do demagogo é a ideologia, que tem força de religião e lhe confere uma aura de santidade. Nimbado dessa auréola, ele ganha uma espécie de imunidade moral. Pode mentir, roubar, se corromper, que sempre vai encontrar quem o defenda. Afinal, não existe orfandade mais dolorosa do que a do mito, cuja perda deixa os devotos na mais profunda solidão.

Não é bem isso

(atualizando alguns clichês machistas)

– Toda mulher gosta de apanhar (os objetos que os homens deixam pelo chão).  

– Mulher não sabe dirigir (quando é o homem que orienta o tráfego).

– Mulher não entende de futebol (jogado por certos pernas de pau).

– Onde há confusão, tem mulher (buscando moderar os ânimos). 

– Mulher fala demais (já que os homens não querem escutá-las).

– Lugar de mulher é na cozinha (ensinando o homem a vestir o avental)

– A mulher se aliou à serpente para expulsar o homem do Paraíso (mas se ela não tivesse feito isso os dois ainda estariam lá, curtindo um tédio infinito).

Cacófatos

— Tudo que eu quero é amá-la.

— Que mala?

— Não, não me refiro a mala, objeto. Falo de amar você. Amar-te.

— A Marte? Você quer ir para Marte? Mas como? 

— Quem disse que eu queria ir para Marte? Quero ficar na Terra, claro. Contigo.

— Com Tigo? E quem é Tigo? Por que não comigo?

— Mas é isso que quero… Ter-te. Façamos um trato.

— E se você me der um trote? Te trituro.

— Tolice. Não sou de treta. Diante de ti, meu coração, trêfego, trauteia…

— Trauteia o quê, traste?

— Sei lá… Um tango, ou um foxtrote. E não me chame de traste. Fico triste.

— É que você irrita… 

— Eu e Rita? Juro que não conheço nenhuma Rita! Sou reto. E pra mim… há só você.

— Você me assa? Me abraça com ardor, é isso? Então me queime logo no fogo dessa paixão!

Particípio perigoso

Há quem diga “tinha chego”. Essa mania de criar particípios irregulares preocupa os que zelam pela língua. Imaginem um dia a gente ouvir, por exemplo, uma mulher dizer que “tinha pinto”… Não ia pegar bem!

Questões transcendentes e respostas nem tanto (3)

1) Você se acha uma pessoa constante? R.: Às vezes.

2) Como distingue sexo de amor? R.: No sexo, cuidamos do outro pensando em nós; no amor, cuidamos de nós pensando no outro.

3) Tem medo do inferno? R.: Tenho mais medo dos que querem me livrar do inferno.   

4) Diga uma frase essencialmente mentirosa. R.: Eu não minto.

5) O que acha inútil na vida? R.: O que não traz respeito, dinheiro ou prazer. 

6) O que pediria às pessoas que o seguem? R.: Que me mostrassem o caminho.

7) O que é mais difícil na vida? R.: Representar o próprio papel.

8) É possível ao homem chegar ao autoconhecimento? R.: A gente só se conhece até onde não é.

9) Acredita no socialismo? R.: A maioria é pela igualdade de classes desde que se preserve o seu status.

10) Dê um conselho aos vaidosos. R.: Quem vive “se achando” ainda não se encontrou. 

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