Internet e fofoca

A internet potencializou a fofoca. A fofoca não é novidade, claro; sempre houve pessoas que precisam depreciar os outros para se sentir melhores. Mas antes a vida alheia era objeto de comentários discretos. Havia certo pudor do fuxico. Hoje a maledicência é propaganda sem limites nas redes sociais. E a coisa piora devido ao distanciamento propiciado pelo universo virtual. Na conversa frente a frente é mais difícil deixar de lado o escrúpulo, pois o interlocutor está diante de nós. Mas isso não ocorre quando o outro é uma presença remota, e falta o olho no olho.

O democrata e o demagogo

O democrata se curva à vontade do povo. O demagogo curva o povo à sua vontade, dando a impressão de que age em prol do bem público. A arma do demagogo é a ideologia, que tem força de religião e lhe confere uma aura de santidade. Nimbado dessa auréola, ele ganha uma espécie de imunidade moral. Pode mentir, roubar, se corromper, que sempre vai encontrar quem o defenda. Afinal, não existe orfandade mais dolorosa do que a do mito, cuja perda deixa os devotos na mais profunda solidão.

Não é bem isso

(atualizando alguns clichês machistas)

– Toda mulher gosta de apanhar (os objetos que os homens deixam pelo chão).  

– Mulher não sabe dirigir (quando é o homem que orienta o tráfego).

– Mulher não entende de futebol (jogado por certos pernas de pau).

– Onde há confusão, tem mulher (buscando moderar os ânimos). 

– Mulher fala demais (já que os homens não querem escutá-las).

– Lugar de mulher é na cozinha (ensinando o homem a vestir o avental)

– A mulher se aliou à serpente para expulsar o homem do Paraíso (mas se ela não tivesse feito isso os dois ainda estariam lá, curtindo um tédio infinito).

Cacófatos

— Tudo que eu quero é amá-la.

— Que mala?

— Não, não me refiro a mala, objeto. Falo de amar você. Amar-te.

— A Marte? Você quer ir para Marte? Mas como? 

— Quem disse que eu queria ir para Marte? Quero ficar na Terra, claro. Contigo.

— Com Tigo? E quem é Tigo? Por que não comigo?

— Mas é isso que quero… Ter-te. Façamos um trato.

— E se você me der um trote? Te trituro.

— Tolice. Não sou de treta. Diante de ti, meu coração, trêfego, trauteia…

— Trauteia o quê, traste?

— Sei lá… Um tango, ou um foxtrote. E não me chame de traste. Fico triste.

— É que você irrita… 

— Eu e Rita? Juro que não conheço nenhuma Rita! Sou reto. E pra mim… há só você.

— Você me assa? Me abraça com ardor, é isso? Então me queime logo no fogo dessa paixão!

Questões transcendentes e respostas nem tanto (3)

1) Você se acha uma pessoa constante? R.: Às vezes.

2) Como distingue sexo de amor? R.: No sexo, cuidamos do outro pensando em nós; no amor, cuidamos de nós pensando no outro.

3) Tem medo do inferno? R.: Tenho mais medo dos que querem me livrar do inferno.   

4) Diga uma frase essencialmente mentirosa. R.: Eu não minto.

5) O que acha inútil na vida? R.: O que não traz respeito, dinheiro ou prazer. 

6) O que pediria às pessoas que o seguem? R.: Que me mostrassem o caminho.

7) O que é mais difícil na vida? R.: Representar o próprio papel.

8) É possível ao homem chegar ao autoconhecimento? R.: A gente só se conhece até onde não é.

9) Acredita no socialismo? R.: A maioria é pela igualdade de classes desde que se preserve o seu status.

10) Dê um conselho aos vaidosos. R.: Quem vive “se achando” ainda não se encontrou. 

Questões transcendentes (e respostas nem tanto) 2

1) Você acha a existência gratuita? R.: De modo algum. Tudo nela é pago — da maternidade, onde nascemos, à capelinha onde vão nos velar.

2) O que é, para você, um grande homem. R.: Um grande homem, o mais das vezes, é alguém de quem só se conhece uma pequena parte.

3) Tem medo de ser esquecido pelas pessoas? R.: Por algumas, tenho medo de ser lembrado.

4) Que acha do casamento aberto? R.: O casamento é uma sociedade de companhia limitada. Abrir o capital pode ser um risco.

5) Aponte uma diferença entre juventude e velhice. R.: Na juventude fazemos sonetos. Na velhice rezamos — ou fazemos piadas.  

6) Que acha do radicalismo? R.: Sou rigorosamente contra toda espécie de radicalismo. 

7) Acha que o acaso nos governa? R.: O acaso pode ser a lógica de Deus.  

8) Acredita em movimentos sociais? R.: Acredito mais nos sexuais, pois eles não discriminam quem está em cima e quem está embaixo.

9) Faria um pacto com o diabo? R.: Desconfio de que ele não ia aceitar. Minha alma foi contaminada pela bondade.  

10) O que o tira do sério? R.: Uma boa piada.

Questões transcendentes (e respostas nem tanto) 1

1) O que vem após a morte? O enterro.

2) É possível encontrar o significado da vida? É. No dicionário.

3) De onde veio o homem? Depende de para onde ele foi.

4) O que o leva a se sentir vazio? Não ter almoçado ou jantado bem.

5)  Acha que “o inferno são outros”? Os outros não sei, mas mulher com TPM é. 

6) O que mais o amedronta? Chegar ao outro mundo e não ver Deus. 

7) É verdade que o sexo entristece? Triste é não conseguir fazê-lo.

8) O que acha da literatura mediúnica? Acho que lhe falta espírito.

9) Beleza é fundamental? O essencial para o amor não é a beleza, mas a compatibilidade. Não amamos o que é belo, mas o que nos gratifica.

Verdades? Nem sempre.

As pessoas dizem: o importante é ser feliz. Mais importante, a meu ver, é aprender a contornar a infelicidade.

Falam que é preciso tentar coisas novas. Nem sempre. O necessário

é tirar sábias lições das coisas velhas para resistir às armadilhas do falso novo; nem toda novidade representa um acréscimo importante para nós.

Apregoam que é fundamental crer num outro mundo, pois no amor a Deus está a fonte do amor ao homem. A verdade é que uma coisa pouco tem a ver com a outra. A inspiração para amar o semelhante deve vir do próprio homem. Às vezes o dito “amor a Deus” é sobretudo um meio de se fortificar interiormente para cometer ações que nada têm de altruístas. Pode ser uma forma de se considerar autossuficiente e não sentir culpa por isso.

Advogados

Cinco razões pelas quais eu gostaria de ser um advogado. Eles

– não precisam buscar popularidade, já que são líderes em audiência.

– têm mais do que as outras pessoas espírito cristão, pois lutam para que se perdoe o réu independentemente de ele ter ou não culpa.

– dificilmente se apertam, devido à habilidade que têm para obter recursos.

– estão sempre dispostos a assumir uma boa causa. 

– têm a filosófica compreensão de que a vida é um conjunto de processos que não devem chegar necessariamente ao fim (a não ser com a morte).